domingo, 24 de outubro de 2010

Desejo

Desejo primeiro que você ame,
E que amando, também seja amado.
E que se não for, seja breve em esquecer.
E que esquecendo, não guarde mágoa.
Desejo, pois, que não seja assim,
Mas se for, saiba ser sem desesperar.

Desejo também que tenha amigos,
Que mesmo maus e inconseqüentes,
Sejam corajosos e fiéis,
E que pelo menos num deles
Você possa confiar sem duvidar.
E porque a vida é assim,
Desejo ainda que você tenha inimigos.
Nem muitos, nem poucos,
Mas na medida exata para que, algumas vezes,
Você se interpele a respeito
De suas próprias certezas.
E que entre eles, haja pelo menos um que seja justo,
Para que você não se sinta demasiado seguro.

Desejo depois que você seja útil,
Mas não insubstituível.
E que nos maus momentos,
Quando não restar mais nada,
Essa utilidade seja suficiente para manter você de pé.

Desejo ainda que você seja tolerante,
Não com os que erram pouco, porque isso é fácil,
Mas com os que erram muito e irremediavelmente,
E que fazendo bom uso dessa tolerância,
Você sirva de exemplo aos outros.

Desejo que você, sendo jovem,
Não amadureça depressa demais,
E que sendo maduro, não insista em rejuvenescer
E que sendo velho, não se dedique ao desespero.
Porque cada idade tem o seu prazer e a sua dor e
É preciso deixar que eles escorram por entre nós.

Desejo por sinal que você seja triste,
Não o ano todo, mas apenas um dia.
Mas que nesse dia descubra
Que o riso diário é bom,
O riso habitual é insosso e o riso constante é insano.

Desejo que você descubra ,
Com o máximo de urgência,
Acima e a respeito de tudo, que existem oprimidos,
Injustiçados e infelizes, e que estão à sua volta.

Desejo ainda que você afague um gato,
Alimente um cuco e ouça o joão-de-barro
Erguer triunfante o seu canto matinal
Porque, assim, você se sentirá bem por nada.

Desejo também que você plante uma semente,
Por mais minúscula que seja,
E acompanhe o seu crescimento,
Para que você saiba de quantas
Muitas vidas é feita uma árvore.

Desejo, outrossim, que você tenha dinheiro,
Porque é preciso ser prático.
E que pelo menos uma vez por ano
Coloque um pouco dele
Na sua frente e diga "Isso é meu",
Só para que fique bem claro quem é o dono de quem.

Desejo também que nenhum de seus afetos morra,
Por ele e por você,
Mas que se morrer, você possa chorar
Sem se lamentar e sofrer sem se culpar.

Desejo por fim que você sendo homem,
Tenha uma boa mulher,
E que sendo mulher,
Tenha um bom homem
E que se amem hoje, amanhã e nos dias seguintes,
E quando estiverem exaustos e sorridentes,
Ainda haja amor para recomeçar.
E se tudo isso acontecer,
Não tenho mais nada a te desejar .

(Victor Hugo)

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Resposta ao texto do amigo

Olá gente!
Aqui estou eu novamente e desta vez venho responder a um fervoroso e instigante debate fomentado no blog do meu amigo Cássio, que por sinal está muito legal!
Quem tiver a curiosidade de ler o texto para entender melhor do que se trata a nossa discussão é só acessar: http://locomotivaabstrata.blogspot.com/2010/10/justo-questionamento-justica.html#comments
Gostei muito do seu texto, mas tenho que fazer algumas considerações... Ninguém mandou você perguntar o que eu acho!!hehe
Concordo que não existe um conceito único e próprio de justiça, uma vez que em todo mundo existem culturas, pessoas, tribos e povos com construções históricas e ideológicas diversas, e o justo torna-se muito mais amplo e relativo. O Estado tenta de alguma forma unificar este conceito em busca da preservação de uma "ordem". Uma tentativa que de algum modo garante alguns "direitos" aos cidadãos. No entanto, será essa a forma mais eficaz? Vale apena reprimir todos os tipos de ideias e posicionamentos para manter a "tranqüilidade" do país?? Este ponto colocado por você é muito relevante dentro de uma análise sobre a justiça promovida pelo Estado. Tomando como o exemplo a realidade mais próxima, a situação da justiça brasileira. Será que a gloriosa frase “Ordem e Progresso” condiz com o que vivemos? E de fato ela é válida pra uma população se manter? Que "ordem" e que "progresso" é esse que obriga índios a manterem engenheiros, médicos e outras pessoas como reféns em troca de comida, remédio, e todo tipo de assistência básica? Que privilegia aqueles que têm os melhores carros, casas e os melhores diplomas e trata os mais pobres com "esmolas assistencialistas"? E trata criminosos como animais perigosos, que entram na cadeia sem nenhuma perspectiva de vida e saem com menos dignidade ainda, marcados pelo preconceito e o abandono social? Existe justiça mesmo? E diante disso é importantíssimo frisar que o conceito do que é justiça não vem inscrito em um código genético, mas é formado e incorporado do contexto social de cada um, somado às conclusões em que o próprio sujeito tira do que vive. E apesar de gostar do seu texto, pergunto-te: se não existe uma verdade sobre o que é justo, se os seres humanos possuem julgamentos muito particulares, o que é certo e o que é errado? Se a justiça, segundo você, não possui uma conceituação exata então não há como impor um julgamento dos atos certos e errados, não acha? No Brasil a poligamia é crime, para os mulçumanos é parte de seus costumes. Em alguns povos, sacrificam-se pessoas em nomes dos deuses, em outros matar pessoas é crime e pode levar até mesmo à cadeira elétrica. Para aqueles que seguem a religião Testemunhas de Jeová não é permitido a transfusão sanguínea, para as outras religiões isso é um atentado contra a vida. Para a ciência as células-tronco retiradas dos embriões é uma possibilidade de salvar vidas, para os religiosos significa o assassinato de alguém. Será que dá mesmo pra julgar a atitude dos outros segundo o que eu acredito que é certo? E não venho através das minhas colocações, posicionar-me a favor de nenhum grupo religioso ou político. Apenas quero criar mais e mais questões para pensarmos. As soluções “justas” que um Estado propõe nem sempre servem para todos. Fato importante para analisar principalmente neste período eleitoral que estamos vivendo. E já que toquei neste assunto, gostaria de contrariá-lo em outro ponto, não acho que a anarquia seja sinônimo de caos, pelo contrário, acho uma forma de ideologia política até organizada demais. O problema é que para chegarmos até ela temos que estar preparados e amadurecidos, e isso leva tempo, o mesmo tempo que o capitalismo levou para se tornar império produzindo sujeitos que o fortaleça. Uma sociedade sem Estado é possível desde que se haja respeito sobre as diferenças, desde que o estranho não seja mais visto como um adversário, mas como parte de um colorido. Sei que posso estar sendo um tanto idealista, mas mais uma vez tenho que discordar e concordar em parte de você. Aqui, mesmo que de uma forma mínima, luto por uma causa que de alguma forma vai te afetar e afetar aqueles que irão ler meu texto. Posso não provocar nenhum tipo de revolução, nem mudar a estrutura social e política, mas com certeza você ou qualquer outra pessoa irá pensar nem que seja um pouco no que escrevi aqui, ou pelo menos iram se sentir um pouco incomodados. E o que você fala sobre não buscar defender alguma questão em troca de paz, parece-me um tanto equivocado. Pode esta última também ser uma causa pela qual lutamos, e deixar de lado aquilo que acreditamos é simplesmente desistir de nós mesmos.
De maneira nenhuma tenho a intenção de impor meu ponto de vista de forma prepotente e ditatorial, só quero expor o que penso para que, quem sabe, possamos criar novas ideias.
Um abraço!