sexta-feira, 29 de maio de 2020

O Pedido

Ensina-me a fazer poesia?
Traços tortos, tão tontos quanto os nossos
Passos largos, sem calma nos espaços
Quero pisar onde não pisaria 
Assim em ti

Ensina-me a fazer poesia?
Com a mesma ânsia de todos os dias
Com a mesma sede que a alma teria
Sem mais
Ser Nós
Além

Ensina-me a ser poesia?
Feliz, sem medo da falta do abraço
Penetrando a superficie do aço de cada rima
Pra que se refaça sempre esse descompasso 

Ensina-me a ser poesia?
No entanto, nem de longe, nem atento
Não tire minha melhor teoria
Que anda dormindo por dentro
Mas faz tempo não aparecia 
E de súbito, ainda hoje, passou por aqui

segunda-feira, 4 de novembro de 2019

Um desabafo sobre os 30


Então já se foram 3 décadas? Assim tão depressa que nem me dei conta de que estou chegando a quase metade da vida de um brasileiro, segundo o IBGE...rs. Tenho recordações de quando eu tinha 10 anos, nas férias em Marataízes, em que eu brincava com minha prima. Éramos “adultas de 30 anos” e as nossas idealizações tinham uma certa pitada hollywoodiana de mulheres executivas muito ocupadas que falavam palavrões enquanto fumavam um cigarro. Então, 20 nos depois, me formei em psicologia, não virei executiva, falo alguns palavrões mas detesto cigarro. Acho que a Camila de 30 veio um pouco diferente. Tão diferente do que a de 10 pensava, diferente também das expectativas que a Camila de 20 tinha e muito diferente das cobranças das pessoas sobre quem tem 30 anos. Mas sabe de uma coisa? O fato de não corresponder ao que todo mundo espera de mim me ensinou tanto! Me ensinou que eu não preciso ser “bem sucedida” no trabalho, nem ter o carro do ano, nem fazer intercâmbio na Irlanda, nem ser casada e ter filhos ou ser “super malhada” e usar as roupas da moda enquanto tiro foto num hotel de luxo em Trancoso. Embora essas coisas todas sejam maravilhosas não são as únicas opções de felicidade. Um umas das "bênçãos" que os 30 me deram foi ser livre, livre de qualquer convenção social, livre de ter que corresponder uma sociedade chata e careta. O amadurecimento também foi outra coisa que me ajudou a entender que as pessoas podem ir embora das nossas vidas de muitas maneiras diferentes, que nem todas as grandes amizades duram  para sempre e que nem todos namoros valem à pena pra sua saúde mental. Me ensinou também que as pessoas podem se distanciar por muitos motivos com a vida adulta, mas que toda vez que a  música que lembre de você tocar ou quando passa a sua série favorita elas vão querer fazer contato para saber como você está. Além disso, aprendi que apesar de todos os problemas pelos quais a gente passe, o cara lá de cima vai sempre enviar um momento bom ou uma pessoa boa para compensar o seu dia difícil. Aprendi que pessoas pra criticar sua vida, mesmo sem saber nada, nunca irão faltar, mas no meio desse monte de gente você encontra sempre alguém pra te estender a mão ou emprestar um "ombro amigo". E não, com 30 você ainda não conhece tudo sobre a vida, talvez nem saiba ainda lidar com todas as barras, mas com certeza sabe pensar um pouco melhor sobre elas. E, aqui, eu descobri que o mais importante para mim é cuidar da minha autoestima, e que mesmo quando nada é do jeito que se imaginava, mesmo quando não se está nos seus melhores dias, é preciso buscar formas de se amar mais, de se querer mais e de ser bem melhor, porque é como já dizia Maiakoviski, gente foi feita para brilhar e que tudo mais vá pro inferno!



terça-feira, 13 de março de 2018

Diário de Bordo

Hoje, andei de bicicleta pela segunda vez entre os últimos sete dias. Já fazia um tempo que estava sem praticar este exercício. Aproveitei o convite do amigo e parti para encontrá-lo. Afinal, eu estava mesmo precisando de um pouco de equilíbrio e achei que seria uma boa metáfora para dar umas voltas por aí. A princípio, pensei nos caminhos em que poderia passar: "Quem sabe fugir da rodovia e passar pelas ruas laterais, atravessar a ponte e subir o tão temido morro até chegar ao bairro?" Passei pelas ruas traseiras, subi na bicicleta e fui como se fosse meu primeiro ensaio de voo. Aproximando-me do cruzamento, ouço alguém me alertando da curva, um motociclista passou por mim franzindo a testa. Então, me dei conta de que deveria ir para a esquerda e caí na real − eu não estava dirigindo um carro, embora não fosse tão ruim dirigir "meu carro" agora. Parei pelos carros estacionados, desci da bicicleta e fui guiando para chegar ao outro lado da rodovia. A tão planejada rota afundou como um barco furado, pois a rua do outro lado estava repleta de carros enfileirados no sinal e outros estacionados no acostamento, estrangulando-a ainda mais. Neste caso, o jeito foi seguir a rodovia mesmo - ainda bem que eu não era a única ciclista me aventurando por ali. Quando olhei para trás, havia um carro, e meu desespero fez apressar as pedaladas ainda mais. Logo adiante, pensei comigo:"Carros também devem respeitar ciclistas!". Portanto segui confiante de que mesmo me desviando do protocolo diário sobre evitar atividades muito radicais, não infringi nenhuma regra além das minhas. Foi então que, mais a frente, durante meu percurso, tive a estranha sensação de que minha bicicleta não tinha correntes. Sim! Estava tão leve e parecendo que eu fosse me atirar em qualquer muro ou carro que estivesse pela frente. Troquei uma marcha, em seguida outra marcha e...espere. O que é isso? Pedais mais leves ainda! Fiquei mais forte em sete dias?? Como é possível nenhuma marcha conseguir desafiar os meus pés? Pensei que atravessar a próxima ponte e passar entre outras bicicletas, carros desesperados, pessoas distraídas e carrinhos de bebê seria demais pra mim. Aqueles pedais pareciam evaporar embaixo das minhas sandálias azul petróleo. Diante de tanto, não me contive, não dava pra continuar, eu não me entendi com a "magrela". E revoltada a puxei pelo guidão e dei meia volta. Segui segurando-a com tanta raiva, que o sentimento transformou-se em angústia. Eu poderia ter ido. Se ela não estivesse tão estranha já estaria lá! Fui para casa pelo caminho da eternidade. Eu não avistava nunca o portão, dando assim mais tempo de curtir minha fossa. E finalmente cheguei em casa, sentei no sofá ainda vivendo a revolta de não ter ido. Foi quando dali olhei para varanda e avistei um guarda-sol disperso entre outras coisas, e logo pensei: "Acho que praia é o melhor pra mim". Me arrumei, peguei a canga, uma bolsa, o guarda-sol e parti em direção ao mar. O vento se desenhando com meus cabelos, sol queimando a pele e um mar azul lindo na minha frente: "Que sensação de ser infinito!". Entrei na água super gelada e pouco a pouco me banhava tentando me adaptar à temperatura. No primeiro mergulho subo e deparo bem na minha frente com uma tartaruga quietinha olhando para mim. Acho que sou a única pessoa no mundo a pensar que tartarugas podem querer morder nossos dedos do pé enquanto estamos distraídos no mar. Daí pensei, se ficaria onde estava ou me afastava, mas ela se foi.  E fiquei ali, esquecendo-me um pouco do meu medo de tartarugas, observando o horizonte e um barco que navegava. Este tinha muitas cores, todas elas vibrantes, uma enorme vela branca - daquelas que ficam quase azuis de tão claras com a luz do sol - e em baixo dele estava escito o nome de alguém que nem me lembro mais. O que importam os nomes? Só sei que as letras eram enormes "garrafais" pintadas à mão com uma tinta verde. E ele ia tão longe e à deriva fazendo o mesmo movimento que eu fazia quando as ondas tocavam. Naquele instante eu me sentia barco na imensidão de água e de dia.

segunda-feira, 12 de março de 2018

De Janeiro

A vida é tão inexata quanto os teus olhos caídos no dia em que nos despedimos.
Eu me prendia na confusão das minhas frustrações,
E você no silêncio das suas incertezas.
Diante de tanto, eu vou,
Deixo com que você vá também,
Aceitando os dias em que descobri que me cabe deixar ir.
Eu, que não sou de negociar com meu apego escorpiano,
me peguei passando uma rasteira em todos os astros
E me tornando cosmos.
Deixando a resposta de todas as estações pousar levemente sobre os ombros,
Para que assim eu possa seguir subindo em nuvens.

sábado, 17 de maio de 2014

A vista

De tanto tentar deixei que viesse sinceramente.
Todos os instantes permiti sua manifestação de mudez que aqui se insere.
A este repentino desafio que se faz presente,
Remeto-me a todos os instantes menos cabíveis.
Eu vendo,
Há quilômetros de distância todas as distorções do que me parecia mais exato,
Controlava tudo o que vinha ao meu redor, mas escorregava entre os dedos,
Com todos os gostos e sensações do que me apresentava.
E sendo,
Apenas aquilo que me projetava neste tempo tão saudoso,
Cheia de indagações mais trajadas de rebeldia inconformada.
Aqui por quanto? por onde? por quê?
Eu tento,
Voltar ao vazio e dar novos sentidos a minha epopeia súbita,
Mas entre cavalos, lanças e reinos o que me fará mais sábia?
Vestir-me com a armadura? Saber cravar a lança? Ou ter um bom cavalo?
Eu me atento
A cada instante, a cada hora, a cada detalhe
E ainda assim sempre me deparo com o nada.
Estes instantes, horas, detalhes não me deixam mais que retratos na parede.
Como voltar? E voltar me traz recomeço?
Porque se volto e rabisco tudo de novo, será que meu começo será começo?
Será que voltar é recomeço?
Será avesso?
Será que eu sempre tendo, sendo, atento chego a tempo pra pensar no que partiu?
Ou no que começou?
A única certeza é de que a tudo que me cabe,
Cabe minha história.










quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Sobre mim...

Eu simplesmente gosto da minha escrita esquizofrênica. Gosto da minha afinidade pelos contrastes, pelos adjetivos, pelas rimas mal feitas, pelas frases assimétricas. Quando eu escrevo, a ordem é mínima só porque odeio, abomino as regras exageradas das ditaduras dos textos formais. Escrita pra mim tem que ser leve. Tem que ser ato libertário, de se revelar, de ser o que se é sem medo de correções. Nunca fui uma ótima aluna em redação, nem venerei a gramática. Em contrapartida sempre amei as palavras, os sentidos, suas formas e contornos. Sempre me encantei pelo som em que elas fazem quando combinadas. Na melodia de quando tocadas pela garganta, boca, dentes. Pra mim é como se quase ganhassem uma materialidade e fossem sentidas na pele. E escrevê-las é como me desligar daqui. É como ser algo que eu não conhecia e me misturar entre outras coisas entre o que eu sou e o que eu até então não sabia que fazia parte de mim.

terça-feira, 7 de maio de 2013

Mãe Preta


Eu abri essa ferida foi pra você entrar.
Foi pra te carregar comigo como me carregava no embalo das minhas noites de insônia.
Abro o coração só pra não deixar escapar esse sorriso da moleca contadora de estórias.
De tanto rir me fiz também você e de todos os “vocês” que a vida me trouxe.
Hoje é da sua risada gostosa, da sua voz tão doce e das piadas mais puras é que eu me lembro.
E não mais da dor.
Não havia dor nos seus olhos, nem medo na sua voz.
Só havia você e nada mais.



sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Bilhete

Desculpe a falha da tinta, a caneta é antiga.
Venho até aqui, nesta folha de caderno, oferecer-te versos.
É debaixo dessas mãos miúdas que se passa um dia, semana, meses...
Talvez anos inteiros, em segundos.
Nessas pequenas histórias já se fazem vidas rabiscadas.
Pode ser que não façam o menor sentido.
Que tudo que eu dedique seja estranho.
Mas quero mesmo assim poder dizer o quanto a menores coisas podem ser essencias.
O quanto essas palavras simples podem ser as melhores que consiga trazer.
E que estes pequenos momentos...Estes eu guardo pra sempre.

Redemoinho


Deixe o tempo levar, ir embora.
Tire a roupa suja de poeira.
Vem pra roda dançar os quatro ventos.
Que hoje eu quero te ver passar.
Não grita nem apavora.
Que agora a vida anda e quem fica é sempre a velha menina do espelho.
É essa música nova que toca aqui por dentro.
Só de sonhar me sopra a sinfonia que eu quero ouvir.
Vem comigo, vem cor-rendo.
Porque é como diz o velho Chico: "Tem coisas que o coração só fala pra quem sabe escutar."

terça-feira, 29 de maio de 2012

O milagre das folhas

"...Estou andando pela rua e do vento me cai uma folha exatamente nos cabelos. A incidência da linha de milhões de folhas transformadas em uma única, e de milhões de pessoas a incidência de reduzi-las a mim. Isso me acontece tantas vezes que passei a me considerar modestamente a escolhida das folhas. Com gestos furtivos tiro a folha dos meus cabelos e guardo-a na bolsa, como o mais diminuto diamante. Até que um dia, abrindo a bolsa, encontro entre os objetos a folha seca, engelhada, morta. Jogo-a fora: não me interessa fetiche morto como lembrança. E também porque sei que novas folhas coincidirão comigo. Um dia uma folha me bateu nos cílios. Achei Deus de uma grande delicadeza."


(Clarice Lispector)

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Hoje


Hoje tô meio frouxo, xoxo, sem vida, opaco, sem nada.
Hoje o dia não me preencheu, nasceu cru e morreu abafado no escuro.
Hoje sem nada pra dizer.
Sem ter o que fazer,  a casa mudou de tom.
Ela fez assim, sem minha permissão.
E eu com cara de boba.
Olhando a cortina parada e a ventania lá fora
Esperando o tempo ir embora pra eu ir junto.
Porque hoje to presa nesse assunto de dia ruim.

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Uma homenagem pequenininha pra combinar com você.

Eu te conheci bem pouquinho tempo e ainda assim senti vontade de te escrever.


CRISTAL

Ela se despediu tranquila.

Sua face tinha a ternura de sempre.

A menina dos olhinhos que brilhavam tal como seu nome apenas os fechou.

Foi passear no mundo dos sonhos.

Trouxe um novo brilho para a noite de estrelas.

Essa mesma luz se refletirá naqueles que ela deixou no meio da estrada.

E me pergunto o que teria sido essa sua partida.

Despejo-me dizendo:

É de amor! É de amor!

O amor que carregava era tão grande que não lhe cabia no peito.

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

O Louco

Perguntais-me como me tornei louco. Aconteceu assim:

Um dia, muito tempo antes de muitos deuses terem nascido, despertei de um sono profundo e notei que todas as minhas máscaras tinham sido roubadas – as sete máscaras que eu havia confeccionado e usado em sete vidas – e corri sem máscara pelas ruas cheias de gente gritando: “Ladrões, ladrões, malditos ladrões!”

Homens e mulheres riram de mim e alguns correram para casa, com medo de mim.

E quando cheguei à praça do mercado, um garoto trepado no telhado de uma casa gritou: “É um louco!” Olhei para cima, para vê-lo. O sol beijou pela primeira vez minha face nua.

Pela primeira vez, o sol beijava minha face nua, e minha alma inflamou-se de amor pelo sol, e não desejei mais minhas máscaras. E, como num transe, gritei: “Benditos, benditos os ladrões que roubaram minhas máscaras!”

Assim me tornei louco.

E encontrei tanto liberdade como segurança em minha loucura: a liberdade da solidão e a segurança de não ser compreendido, pois aquele que nos compreende escraviza alguma coisa em nós.

(Khalil Gibran)

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Pela Vidraça

Eu ando meio cansada.
Cansada do que ainda não nem sei.
Só de pensar me traz mais espaço nesse vazio todo cheio de outras coisas.
Fico me perguntando se de fato me falta o que procuro,
Ou se o que penso em querer é que me anda dando meias-voltas.
Isso que acontece é quase tão inexpressível quanto esse dia nublado.
Fecho os olhos mais o nada ainda me traz mais angústias.
Os meus rodopios nessa valsa inacabada sempre terminam em náuseas.
Acho que por hoje a caça já foi suficiente.
Quero mesmo é ser eficiente pra esse desejo doente.
Eu me retiro por hoje.
Vou descansar pra acordar o sol.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Blog do amigo



O blog do meu amigo Gabriel Mathias está imperdível. Está aí uma boa opção pra viajarem mais no mundo das poesias e descobrirem novos talentos.
Acesse: http://poetizando-a-vida.blogspot.com/

sexta-feira, 4 de março de 2011

A Ponte

Eu acredito nessa pena branca que voa entre os teus dedos.
Porque é teu o poder que me transfoma em tudo que eu nunca vi.
Eu voo distante nestes teus braços longos.
E me envolvo nessa energia que me conduz...
Sou só tua ponte.
Deixa-me ser apenas isso.
A mim basta que seja o fio que liga-te aos outros pequeninos como eu.

Nasci madura daquilo que nunca conheci,
Daquilo que tu um dia me disse: Toma, é só teu.
Amo-te sem nunca ter te visto.
Amo-te porque além da minha crença tu me deste o privilégio de navegar por muitos rios.
Amo-te pelo propósito que me incumbiste.

Eu quero continuar sendo a ponte.
A ponte que um dia tu me mostraste.
Eu quero poder ajudar os outros pequeninos também.
Aqueles todos que foram esquecidos.
Aqueles que um dia tu me mostraste.

O teu riso

Tira-me o pão, se quiseres,
tira-me o ar, mas não
me tires o teu riso.

Não me tires a rosa,
a lança que desfolhas,
a água que de súbito
brota da tua alegria,
a repentina onda
de prata que em ti nasce.

A minha luta é dura e regresso
com os olhos cansados
às vezes por ver
que a terra não muda,
mas ao entrar teu riso
sobe ao céu a procurar-me
e abre-me todas
as portas da vida.

Meu amor, nos momentos
mais escuros solta
o teu riso e se de súbito
vires que o meu sangue mancha
as pedras da rua,
ri, porque o teu riso
será para as minhas mãos
como uma espada fresca.

À beira do mar, no outono,
teu riso deve erguer
sua cascata de espuma,
e na primavera , amor,
quero teu riso como
a flor que esperava,
a flor azul, a rosa
da minha pátria sonora.

Ri-te da noite,
do dia, da lua,
ri-te das ruas
tortas da ilha,
ri-te deste grosseiro
rapaz que te ama,
mas quando abro
os olhos e os fecho,
quando meus passos vão,
quando voltam meus passos,
nega-me o pão, o ar,
a luz, a primavera,
mas nunca o teu riso,
porque então morreria.

(Pablo Neruda)

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Colcha de Retalhos

Ainda que linha acabe e desacomode todos os pedaços de pano,

Junto pontas e ajusto bem os nós.

Tecer cada pequeno quadrado colorido com delicadeza trouxe minha angústia dos dias sem cor.

Dias em que os olhos se despediram de todos os carretéis e retalhos.

Vivo, hoje, despedaçada e misturada junto à poeira do chão.

Ainda que não haja linha onde as minhas mãos alcancem.

Ainda assim, desfazer-se não é fim.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Resposta ao texto do amigo

Olá gente!
Aqui estou eu novamente e desta vez venho responder a um fervoroso e instigante debate fomentado no blog do meu amigo Cássio, que por sinal está muito legal!
Quem tiver a curiosidade de ler o texto para entender melhor do que se trata a nossa discussão é só acessar: http://locomotivaabstrata.blogspot.com/2010/10/justo-questionamento-justica.html#comments
Gostei muito do seu texto, mas tenho que fazer algumas considerações... Ninguém mandou você perguntar o que eu acho!!hehe
Concordo que não existe um conceito único e próprio de justiça, uma vez que em todo mundo existem culturas, pessoas, tribos e povos com construções históricas e ideológicas diversas, e o justo torna-se muito mais amplo e relativo. O Estado tenta de alguma forma unificar este conceito em busca da preservação de uma "ordem". Uma tentativa que de algum modo garante alguns "direitos" aos cidadãos. No entanto, será essa a forma mais eficaz? Vale apena reprimir todos os tipos de ideias e posicionamentos para manter a "tranqüilidade" do país?? Este ponto colocado por você é muito relevante dentro de uma análise sobre a justiça promovida pelo Estado. Tomando como o exemplo a realidade mais próxima, a situação da justiça brasileira. Será que a gloriosa frase “Ordem e Progresso” condiz com o que vivemos? E de fato ela é válida pra uma população se manter? Que "ordem" e que "progresso" é esse que obriga índios a manterem engenheiros, médicos e outras pessoas como reféns em troca de comida, remédio, e todo tipo de assistência básica? Que privilegia aqueles que têm os melhores carros, casas e os melhores diplomas e trata os mais pobres com "esmolas assistencialistas"? E trata criminosos como animais perigosos, que entram na cadeia sem nenhuma perspectiva de vida e saem com menos dignidade ainda, marcados pelo preconceito e o abandono social? Existe justiça mesmo? E diante disso é importantíssimo frisar que o conceito do que é justiça não vem inscrito em um código genético, mas é formado e incorporado do contexto social de cada um, somado às conclusões em que o próprio sujeito tira do que vive. E apesar de gostar do seu texto, pergunto-te: se não existe uma verdade sobre o que é justo, se os seres humanos possuem julgamentos muito particulares, o que é certo e o que é errado? Se a justiça, segundo você, não possui uma conceituação exata então não há como impor um julgamento dos atos certos e errados, não acha? No Brasil a poligamia é crime, para os mulçumanos é parte de seus costumes. Em alguns povos, sacrificam-se pessoas em nomes dos deuses, em outros matar pessoas é crime e pode levar até mesmo à cadeira elétrica. Para aqueles que seguem a religião Testemunhas de Jeová não é permitido a transfusão sanguínea, para as outras religiões isso é um atentado contra a vida. Para a ciência as células-tronco retiradas dos embriões é uma possibilidade de salvar vidas, para os religiosos significa o assassinato de alguém. Será que dá mesmo pra julgar a atitude dos outros segundo o que eu acredito que é certo? E não venho através das minhas colocações, posicionar-me a favor de nenhum grupo religioso ou político. Apenas quero criar mais e mais questões para pensarmos. As soluções “justas” que um Estado propõe nem sempre servem para todos. Fato importante para analisar principalmente neste período eleitoral que estamos vivendo. E já que toquei neste assunto, gostaria de contrariá-lo em outro ponto, não acho que a anarquia seja sinônimo de caos, pelo contrário, acho uma forma de ideologia política até organizada demais. O problema é que para chegarmos até ela temos que estar preparados e amadurecidos, e isso leva tempo, o mesmo tempo que o capitalismo levou para se tornar império produzindo sujeitos que o fortaleça. Uma sociedade sem Estado é possível desde que se haja respeito sobre as diferenças, desde que o estranho não seja mais visto como um adversário, mas como parte de um colorido. Sei que posso estar sendo um tanto idealista, mas mais uma vez tenho que discordar e concordar em parte de você. Aqui, mesmo que de uma forma mínima, luto por uma causa que de alguma forma vai te afetar e afetar aqueles que irão ler meu texto. Posso não provocar nenhum tipo de revolução, nem mudar a estrutura social e política, mas com certeza você ou qualquer outra pessoa irá pensar nem que seja um pouco no que escrevi aqui, ou pelo menos iram se sentir um pouco incomodados. E o que você fala sobre não buscar defender alguma questão em troca de paz, parece-me um tanto equivocado. Pode esta última também ser uma causa pela qual lutamos, e deixar de lado aquilo que acreditamos é simplesmente desistir de nós mesmos.
De maneira nenhuma tenho a intenção de impor meu ponto de vista de forma prepotente e ditatorial, só quero expor o que penso para que, quem sabe, possamos criar novas ideias.
Um abraço!

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Loucura (?) e alguns rastros de Poesia (!)






No mês de junho eu e alguns amigos, em busca de material para a aprensentação de um trabalho, fomos ao Rio de Janeiro conhecer o Museu Imagens do Inconsciente, fundado pela Drª Nise da Silveira. Um grande projeto que marcou o a história da saúde mental no Brasil, fazendo uma releitura das práticas manicomiais até então instituídas.
Nise foi a única mulher a se formar na Faculdade de Medicina da Bahia em 1926. Especializou-se em psiquiatria e prestou concurso para a área. Durante o governo de Getúlio Vargas foi denunciada por possuir obras marxistas, no entanto apenas apreciava a ideologia e nunca teve nenhum envolvimento com o movimento de Prestes. Foi no presídio que conheceu Graciliano Ramos e a partir desta experiência tornou-se uma das personagens de seu livro, "Mémorias do Cárcere". Na volta ao serviço público no Centro Psiquiátrico Nacional inciou sua revolução. Ao criticar as práticas da psiquiatria clássica como eletrochoques, choques de insulina e utilização indiscriminada de medicação, Nise foi deslocada para um setor ignorado pelos médicos, onde os pacientes realizavam serviços de limpeza (mais para o lucro do hospital do que para fins terapêuticos). Ali ela desenvolveu projetos de terapia através da pintura, escultura entre outras coisas. Inaugurou, desta forma, o Setor de Terapia Ocupacional. E foi a partir da reunião de todas as obras feitas no setor que Nise fundou o museu.
Um novo olhar sobre a loucura estava sendo construído. A concepção de que a esquizofrenia ultrapassa todas as barreiras taxativas da loucura como um fator identitário, limitado de qualquer potencialidade que não pertença ao seu âmbito. Através das obras feitas nos ateliês segundo Jung (terórico de Nise) as mãos podiam dizer aquilo que se passava no inconsciente, e que muitas vezes não conseguiam expressar em palavras.
A experiência foi maravilhosa para mim. Principalmente porque desconstrui a visão de que o louco é um sujeito excêntrico e confuso, que possui atitudes peculiares. Junto a área do Museu Nise fundou o hopital psiquiátrico Casa das Palmeiras. Local que tem características diferentes dos outros hospitais: as portas e janelas são abertas, não há enfermeiros, a frenquência diária é de pelo menos cinco horas, os terapêutas não usam jalecos e assumem uma postura de estar sempre ao lado dos chamados "clientes" fazendo também as atividades. Tivemos contato com alguns deles na área de recreação. No primeiro instante não soube julgar quem eram terapêutas e clientes, todos nos recepcionaram muito bem e pareciam animados com nossa chegada. Vimos obras maravilhosas, desenhos ricos em detalhes, esculturas belíssimas e outras coisas.
É claro que não poderia deixar de comentar sobre o fato mais importante pra mim dentre todos os que vi. Um dos internos escreveu uma poesia e nos deu de presente. Tenho que confessar que me emocionei. Transcreverei para vocês:
"A loucura da imaginação; Um conflito do real; Se uma história é contada com inoscência; Com os argumentos da verdade; Quando você acredita em uma versão de que não conhece a realidade, como por exemplo; A mentira não passa a ser verdade quando você acredita; Assim não é sua história de vida".

Logo depois fomos ao grupo de estudos realizado semanalmente no museu. Lá tivemos contato com a história de Nise e, é claro, com a teoria de Jung. O grupo é aberto para profissionais, internos e visitantes. Conheci também um antigo interno, chamado Milton Freire, que passou pelos antigos hospitais psiquiátricos e que hoje, a partir do trabalho feito na Casa das Palmeiras participa da luta antimanicomial e divulga seu livro de poesias chamado "Vida, Poesia". Deliciem-se com uma das poesias do livro:
"Que lugar é esse; Onde se desaprende a linguagem; E do qual quis falar? ; Que lugar é esse Onde se é mortificado? ; Falar, dizer A partir desse lugar, Prisão, cemitério; Campo de concentração? ; Que estranho lugar, Lugar nenhum, Onde habitei E que me habitou e que marcou para sempre? ; Por que demorei tanto a sair desses lugares em mim? ; Menino, voz de mulher Marciano,trovador. Meus personagens; Articulam-se, ;Para um dia te encontrar felicidade."


O trabalho feito por Nise da Silveira, sem dúvida, abriu as portas para que os esquizofrênicos fossem vistos de maneira dirente. O mais importante disto tudo é lembrar de que a loucura não deve ser vista como produtora apenas através de pintura, música, esculturas, poesias, etc. Sua dimensão estaria novamente limitada se estivesse ligada apenas a isso. Ela deve se expandir sobre todos os campos que consideramos pertencentes a todos nós.